A ordem como pretexto e a luz acidentada. Introdução à obra de Manuel Caeiro

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S/ Título. 2009, acrílico sobre tela, 250 x 430 cm

A presente entrada reproduz na íntegra o texto publicado no catálogo Manuel Caeiro. Amazing White Emptyness. Lisboa, Museu Nacional de História Natural e da Ciéncia, 2012. Tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas.

A ordem como pretexto e a luz acidentada. Introdução à obra de Manuel Caeiro

A integridade da obra de Manuel Caeiro (Évora, 1975), salvo excepções, dentro da disciplina pictórica, parece estar atravessada por uma investigação particularmente interessada num sentido construtivo e espacial. Com um notável estudo da cor, Caeiro serviu-se intensivamente de elementos temáticos que lhe permitem, por um lado, estabelecer uma aparência racional ou ordenada e, por outro, experimentar com o acidente, com as diferenças. Desta forma, os elementos construtivos que Caeiro dispõe como argumento das suas composições parecem constituir um pretexto para um trabalho pictórico que, na sua liberdade – sempre dentro dos limites de contenção dos planos que ocupa –, parece mais próximo às obras de um pintor plenamente abstracto embora com uma efusão que desconhece gestos violentos. Deste modo, o sentido da luz de Caeiro desafia a férrea estrutura geométrica dos seus motivos e pode estabelecer-se uma relação com a subversão da estrutura modular e asséptica em extremo do Minimalismo, uma superação pictórica dos padrões rígidos deste movimento internacional, que, no entanto, lhe servem de base, e que conheceu em Portugal um prolixo desenvolvimento tanto entre os colegas de geração de Caeiro como entre alguns dos mais destacados artistas portugueses da geração anterior.

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Podium. 2007, acrílico sobre tela, 195 x 495 cm

Os motivos que constituem a base para as investigações cromáticas de Caeiro apresentam um carácter figurativo. Assim, podem reconhecer-se nelas elementos modulares que servem à arquitectura e também representam andaimarias. Algumas das suas obras também consistem numa incessante proliferação de caixas nitidamente perfiladas que mostram montes de algo similar a areia de diferentes cores (algumas delas confessam, de acordo com os seus títulos, albergar sal negro). No trabalho de Caeiro existe uma sinceridade que delata o seu próprio processo de elaboração, uma das mais sugestivas características da sua linguagem plástica. Assim, os elementos arquitectónicos ou as caixas que pintou não têm qualquer tratamento, como desconhece o fundo da pintura, o próprio suporte pictórico.

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Library. 2007, acrílico sobre tela, 200 x 980 cm

Poderia observar-se no desafio à ordem geométrica dos motivos das composições de Caeiro uma celebração do heterogéneo face a uma utópica ordenação ecuménica. Neste sentido, é interessante relacionar a sua obra com um argumento de Charles Jenks, incluído no seu The Language of Post-Modern Architecture (1984), o qual defendia um respeito pelas tradições construtivas vernáculas e louvava as construções manuais, tais como as barracas da Baía de Sausalito (São Francisco), moradias construídas pelos seus próprios proprietários, com frequência utilizando materiais recicláveis e pintadas de acordo com o gosto do seu fazedor-habitante, dando lugar a uma reunião heterogénea de soluções formais e cromáticas. É interessante constatar como Caeiro encheu álbuns completos com fotografias das barracas que servem aos pescadores do seu país, fábricas manuais de características semelhantes às que Jenks enunciava, interessado fundamentalmente nas possibilidades que os jogos espaciais e cromáticos oferecem nestas construções.

Caeiro desenvolveu também uma obra escultórica na qual aos valores espaciais que lhe são próprios se soma uma notória preocupação com os aspectos lumínicos e visuais. Há dez anos atrás servia-se da estrutura geométrica e fria de vidros emoldurados em ferro para pintar vidros e molduras com verniz. O conjunto, desenvolvido inteiramente em formato vertical e com dimensões idênticas (de 57×38 cm cada uma das suas obras) foi designado por Caeiro como Varandas, ou seja, um tipo de pintura para ver através da própria pintura. Mais recentemente, utilizou como ponto de partida as estruturas de madeira que servem para a sinalização de obras públicas a decorrer que sucedem, para aumentar a sua visualização, segmentos de cor branca e vermelha ou alaranjada (elemento que também protagonizou algumas das suas últimas obras pictóricas) não para a sua apropriação, mas sim para a sua recreação em alumínio, que dotou de tubos de neón com a mesma disposição ortogonal com que dotou as estruturas.

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12000 m2 dentro de um T0 #5. 2011, acrílico sobre lino, 140 x 200 cm

Em algumas das suas últimas obras celebrou-se a confusão entre o público (com representações dos mesmos elementos de sinalização das obras já referidas) e o íntimo, com alusões ao atelier do pintor. Assim, as estruturas transformaram-se em estantes para armazenar pinturas. Uma acumulação de bastidores dos quais apenas são visíveis, no máximo, os seus cantos. Quando se consegue vislumbrar o seu conteúdo iconográfico o olhar só reconhece pinturas monocromáticas e negras, embora ausentes de neutralidade na aplicação da cor. «Welcome to my Loft», título desta série, dá as boas-vindas ao espectador para um cenário metapictórico no qual o homem desapareceu sem deixar mais rasto do que uma ordenação de pinturas de luto e que, devido ao seu abandono, talvez esteja destinada ao mesmo final.

 

Para leer la versión original en español, visite por favor:

El orden como coartada y la luz accidentada. Introducción a la obra de Manuel Caeiro“.

 

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Acerca de juliocesarabadvidal

Julio César Abad Vidal es Premio Extraordinario de Doctorado en Filosofía y Letras por la Universidad Autónoma de Madrid, es Doctor en Filosofía (Área de Estética y Teoría de las Artes), Licenciado en Historia del Arte y Licenciado en Estudios de Asia Oriental, asimismo por la UAM. Desde su primera publicación, en 2000 y, en sus proyectos como docente y comisario, se ha dedicado a la reflexión sobre la cultura contemporánea con tanta pasión como espíritu crítico. Crédito de la imagen: retrato realizado por Daniela Guglielmetti (colectivo Dibujo a Domicilio); más información en https://juliocesarabadvidal.wordpress.com/2015/07/29/dibujo-a-domicilio-un-cautivador-proyecto-colectivo-socio-artistico/

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